Terreiro da Mãe Beata de Iemanjá, na Baixada Fluminense, vira Patrimônio Cultural


O barracão do terreiro Ilé Omiojúàrò, em Miguel Couto, Nova Iguaçu, tem as paredes revestidas de fotos, prêmios e reportagens. No canto direito, um mapa da África. Beatriz Moreira Costa, a Mãe Beata de Iemanjá, entra com passo lento, a mão segurando firme na bengala adornada pela imagem de um elefante. A fragilidade dos 84 anos desaparece quando ela começa a falar.

Conhecida pela sua luta contra o preconceito racial e religioso, Mãe Beata ganhou mais um quadro para a sua coleção. No próximo dia 27, seu terreiro receberá o título de Patrimônio Cultural na 28ª edição do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, promovido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O reconhecimento se deve ao trabalho de preservação da cultura africana.

— Fiquei muito feliz. É um sinal de respeito ao legado dos nossos ancestrais e à nossa fé — comemora.

Mãe Beata não larga a bengala com a imagem de um elefante africano Foto: Mazé Mixo / Extra

Nascido no norte da Nigéria, na África, o bisavô de Mãe Beata chegou à Bahia no sétimo tombeiro que aportou no Brasil. Foi vendido como escravo, mas nunca abandonou o candomblé. Em janeiro de 1931, a bisneta Beatriz nasceu numa encruzilhada, na cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano:

— Minha mãe estava pescando quando a bolsa dela se rompeu. A água foi tingida de sangue e a parteira veio correndo. Assim que nasci, ela disse que eu era filha de Exu com Iemanjá.

Nos anos 60, ela deixou a Bahia porque “filha de Exu não fica num lugar só”. Escolheu a Baixada Fluminense — “esse grande pedaço de África”. Em Miguel Couto, fincou raízes. Promove oficinas e festas, e se esforça para ajudar as pessoas do bairro.

Mãe Beata sentiu o preconceito contra sua cor de pele ainda pequena. Na escola, não podia vestir fantasia de anjo. “E existe anjo negro?”, perguntava a professora. Anos mais tarde, conseguiu vingança. Numa viagem a Berlim, na Alemanha, para participar de uma peça, ela colocou asas e posou em frente ao Obelisco da Vitória:

— Tirei foto num monumento feito do ouro roubado daqui. Nosso país é muito rico, só falta ter uma pessoa com caráter no poder. E falar que no Brasil não existe preconceito é mentira.

A roupa e os acessórios também remetem à sua herança Foto: Mazé Mixo / Extra

Quando o assunto é o Brasil, Mãe Beata se emociona. Para quem já foi recebida pelo ex-presidente Lula, ela está profundamente desanimada com o país. Sobre os políticos, diz que “é tudo farinha do mesmo saco”. Se fala da violência urbana, não consegue conter as lágrimas:

— Os meninos pobres estão marcados para morrer. Antes, favela era samba e respeito ao negro. Agora chamam de comunidade e entram atirando. Uma vez me perguntaram se tenho medo de morrer pelas coisas que falo. Respondi que, se morresse pela minha raça, seria rindo da cara de quem me matou. E os meus ancestrais continuariam o meu trabalho.

Mãe Beata: “Nunca recebi ajuda de político, apenas reconhecimento. Eles sabem que tem uma negra de olho neles” Foto: Mazé Mixo / Extra

História guardada na memória

Mãe Beata quer ir a Brasília para receber o prêmio, mas não sabe se a saúde vai permitir. Se não puder, mandará um dos seus filhos (tem quatro biológicos e já perdeu as contas de quantos de santo) no seu lugar.

— Esse é o meu acervo. Meu sangue é negro e procuro guardar a nossa história. Lutarei pela memória do meu povo até quando os orixás me permitirem. Falar só aqui dentro não adianta, é preciso ir para a rua gritar — reflete.

Autora dos livros “Caroço de dendê: a sabedoria dos terreiros” e “Histórias que a minha avó contava”, Mãe Beata defende a oralidade — modo com seus ancestrais passavam suas histórias para as novas gerações:

— Com o papel, o vento leva e a chuva molha. Acaba rápido. O que Olorum põe dentro da nossa cabeça ninguém pode tirar. É uma energia muito forte.

Mãe Beata se despede, no terreiro Ilé Omiojúàrò, em Miguel Couto, Nova Iguaçu Foto: Mazé Mixo / Extra

Mesmo com a dificuldade para andar, ela faz questão de acompanhar a equipe até o jardim. No último minuto, pede para incluir na matéria um agradecimento:

— É para o Iphan, por acreditar em mim. Eles estão reconhecendo o trabalho de uma mulher que só tem até o 3º ano do primário. Falo muito e incomodo muita gente. Só queria mesmo que alguém me escutasse.

Terreiro da Mãe Beata de Iemanjá, na Baixada Fluminense, vira Patrimônio Cultural Terreiro da Mãe Beata de Iemanjá, na Baixada Fluminense, vira Patrimônio Cultural Reviewed by OGAM MARIANO DE XANGÔ on outubro 19, 2015 Rating: 5

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O QUE SÃO OGÃNS?

O QUE SÃO OGÃNS?
Ser Ogam é muito mais do que ser aquela pessoa no fundo do Terreiro, tocando pontos para as entidades, médiuns e assistentes. Ser Ogam é participar de forma efetiva e consciente nos trabalhos. Isso exige conhecimento, humildade, concentração, responsabilidade, mediunidade e amor. O Ogam é o responsável pelo canto, pelo toque, pela sustentação, pela parte física e equilíbrio harmônico dos rituais. Diferente do que muita gente pensa, um Ogam pode incorporar, porém, a sua mediunidade manifesta-se normalmente, de forma diferente do restante do corpo mediúnico. Manifesta, principalmente, através da intuição, das suas mãos, braços e cordas vocais. Os atabaques, quando devidamente consagrados e ativados pelos Ogãns, são verdadeiros instrumentos de auxílio espiritual, pois são capazes de canalizar, concentrar e irradiar energias que tanto podem ser movimentadas pelo próprio Ogam como pelas entidades de trabalho para os mais diversos fins

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